Fonte: Gazeta do Povo
Com quatro anos de antecedência, os ministérios do Turismo e dos Esportes já fizeram as contas. A Copa do Mundo de 2014 vai movimentar R$ 183 bilhões em todo o país, gerar 710 mil empregos (330 mil definitivos), mobilizar 3 milhões de turistas internos e trazer 600 mil estrangeiros. A confiança, portanto, não está apenas na possibilidade de o Brasil ganhar a Copa, mas na certeza de que o país vai ganhar com a Copa. Para a Olimpíada, em 2016, as contas ainda estão sendo feitas, mas não resta dúvida de que tudo será igualmente superlativo. Contudo, em meio a toda essa euforia há quem se preocupe. Não sem motivos.
Organizações de defesa dos direitos da infância temem que o grande volume de turistas e de operários nas obras da Copa e das Olimpíada possa representar risco para crianças em condições de vulnerabilidade socioeconômica, com o aumento do trabalho infantil e da exploração sexual. A preocupação está fundamentada em problemas enfrentados por alguns países que já sediaram ou vão sediar algum dos dois maiores eventos esportivos do mundo. Essas organizações constataram por meio de estudos e relatórios um preocupante crescimento de casos de desrespeito aos direitos de crianças e adolescentes no período de realização das competições.
Perigo
Sete capitais do país, Curitiba inclusive, estarão às voltas com grandes empreendimentos até 2014. Devido ao grande fluxo de operários, os canteiros de obras costumam se tornar centros atrativos para a indústria do sexo. O fenômeno é mais comum em pequenas e médias cidades, mas é preciso considerar o aumento do risco de trabalho infantil no entorno das obras também nas capitais. Entretanto, especialistas do setor alertam que um risco ainda maior está no fluxo intenso de turistas nacionais e estrangeiros que movimentam a exploração sexual no turismo durante o período de duração dos eventos.
Terminada a Copa do Mundo na África do Sul, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e o Ecpat Internacional (rede mundial de organizações e de pessoas que trabalham para eliminar a exploração sexual, a pornografia infantil e o tráfico de crianças para fins sexuais) voltarão suas atenções para o Brasil. Até lá, há muito o que fazer no continente africano. Conforme essas organizações, somam-se diversos registros apontando para um incremento do tráfico de meninos e meninas nos países mais pobres da África para atender à indústria do sexo.
Investigações revelam que desde 2007 as redes de exploração e de tráfico de seres humanos têm se mobilizado para recrutar mulheres, crianças e adolescentes na Nigéria, Malaui, Moçambique, Namíbia, Zâmbia e Suazilância. A demanda deve crescer com a chegada de 500 mil turistas para a Copa. Há uma estimativa de que aproximadamente 38 mil crianças possam ser vítimas de diferentes tipos de violência, em especial do trabalho infantil e da exploração sexual. Em Moçambique existe o tráfico de mulheres para a África do Sul, onde são vendidas como “escravas” para mineiros perto de Johannesburgo. Duzentas delas foram resgatadas no ano passado.
Conduta
Em 2004, o Unicef, a Organização Mundial do Turismo e o escritório norte americano do Ecpat criaram o Código de Conduta para a Proteção de Meninos e Meninas da Exploração Sexual no Turismo. Desde então, várias associações de agências de viagens subscreveram o documento, que exige das agências que expressem abertamente seu repúdio à exploração sexual infantil, rechacem todo tipo de contato com redes de prostituição locais e capacitem seus funcionários sobre regras de ética nos países onde estas têm maior influência.